Viva o teatro em Milheirós de Poiares!

Conhecer Milheirós de Poiares é uma iniciativa da Associação Abraçar Milheirós de Poiares e a sessão de encerramento da quarta edição deste projeto decorreu no dia 29 de abril de 2017, no Centro Cultural de Milheirós de Poiares.



O encontro abriu com a leitura de uma poema sobre teatro e logo de seguida subiram ao palco, para uma conversa moderada pela presidente da Associação, Albina Almeida, os convidados: Sérgio Perestrelo, Amélia Silveira, Vitória Costa, David Pinto e Vitorino Neves.
Ao longo das intervenções que cada um foi desenvolvendo foi possível perceber o quanto teatro foi e é importante nas suas vidas e para a promoção cultural desta terra. Este foi um momento singular, dado que ao testemunho escrito que já nos tinham feito chegar juntou-se naquele momento a emoção das palavras ditas e acompanhadas pelo gesto e pelo olhar que regressaram ao passado para dele voltar repletas de saudade e orgulho.

Na verdade, no presente ano, propusemos como tema inspirador “O teatro em Milheirós de Poiares”. E mais uma vez desafiamos todos os interessados a escrever ou a fotografar no âmbito deste tema. Paralelamente, convidamos muitos dos milheiroenses, que fizeram ou fazem parte dos grupos de teatro existentes nesta freguesia, a registarem as suas memórias, o seu testemunho, sobre a sua participação nesta nobre e distinta arte de contar histórias.
Confesso que o teatro é uma forma de expressão que muito me cativa dada a complexidade das linguagens que lhe dão forma. Eu diria que é no palco que o texto dramático ganha vida, no momento em que a linguagem verbal contracena com outras linguagens não verbais: que maravilha quando funcionam a uma só voz as palavras, o movimento, o gesto, o adereço, a luz, o som, a música, a imagem, a cor. Enfim, encenar acarreta pois conjugar todos estes elementos de forma a que todos eles contem uma história harmoniosa e cativante. Encenar será todo este trabalho de transformar um texto dramático em espetáculo.
Por estas razões tem sido para mim um privilégio contactar com os testemunhos, dezenas de testemunhos que nos fizeram chegar. É certo que não asseguram totalmente a história do teatro em Milheirós, mas constituem, sem dúvida, um valioso contributo nesse sentido e que vale a pena conhecer e cruzar com outras fontes conhecidas ou a descobrir.
O testemunho solicitado teve por base um inquérito composto por sete questões e, da análise possível até ao momento, penso que será oportuno destacar aqui algumas informações ainda que de forma abreviada por uma questão de tempo e oportunidade.
 Assim, relativamente à questão seis, onde se solicitavam propostas e sugestões, destaco a necessidade de as peças se adaptarem “melhor ao nosso meio, à maneira de estar do nosso povo”. Nesse sentido, sugere-se que se invista em peças cómicas, atuais e cativantes, musicais e comédias que retratem os problemas da atualidade, procurando corrigi-los através do riso, na linha da expressão latina “ridendo castigat mores”.
Pede-se também que não se deixe morrer esta tradição muito antiga, como se pode inferir da notícia publicada no jornal “Progresso da Feira” no dia 4 de abril de 1910, onde se lê:
“Como sempre todos representaram muito bem” referindo-se ao “Grupo Dramático” desta freguesia que tinha posto em cena “um lindo drama” e “uma engraçada comédia” no domingo de Páscoa.
Sugere-se ainda que não se percam as pessoas do teatro por motivos políticos e que não se criem mais barreiras como acontece com a dificuldade em aceder aos espaços de representação.
Não posso deixar de referir ainda a necessidade de o teatro continuar a contar com encenadores apaixonados que promovam a formação, a necessidade de as entidades oficiais disponibilizarem meios e verbas e a necessidade das famílias mostrarem disponibilidade para participarem ativamente na arte de Talma.
Por último, no âmbito do item sete do questionário, é impossível não partilhar dois excertos dos testemunhos que recordam momentos hilariantes do teatro em Milheirós.

O primeiro da autoria de Carlos Almeida:

“Ao representar a peça “O Bruxo”, eu fazia de rapaz que andava com o demónio no corpo e, para me curar, o meu pai (Ernesto Rodrigues) levou-me ao Bruxo (António Bastos). O Bruxo fez umas rezas e atirou para cima de mim tanta arruda e alecrim que fiquei intoxicado e maldisposto pelo que tive de ser assistido no Hospital de São João da Madeira.
Quem me levou lá foi o Serafim Tavares e, logo que entrei no consultório a cheirar a arruda e a alecrim, o médico virou-se para o Serafim Tavares e disse-lhe:
- O senhor vá à bruxa que o pôs neste estado, pois nós aqui no hospital não tratamos de casos de bruxaria.
Convencido que tinham sido mesmo coisas de bruxedos. Só a muito custo o Serafim Tavares convenceu o médico de que se tratava de uma situação passada numa peça de teatro e que houve um exagero por parte de um ator.
Então o médico, finalmente, lá me atendeu e o Serafim Tavares no final ofereceu bilhetes a esse médico, que vivia no Porto, para vir cá assistir ao espetáculo. O médico aceitou e fez questão de vir ao teatro a Milheirós e confirmou que o bruxedo fazia mesmo parte da representação.”

O segundo da autoria de Manuel Paiva:

“Esbarrámos algumas vezes com as exigências dos fiscais dos chamados «Direitos de Autor» e da necessária licença da Câmara Municipal para podermos fazer os espetáculos. Mas numa noite em que apareceram os fiscais à porta do Salão Paroquial a pedir as ditas licenças, antes de começar o espetáculo, eu apareci, de bata branca (pois estava a fazer as caraterizações e não me queria sujar com o pó de arroz) cumprimentei-os amavelmente, e apenas lhes disse:
- Os bilhetes já foram vendidos, o dinheiro é para as obras da igreja e já está guardado. Podem entrar, subir ao palco e mandar embora todas as pessoas. Mas recomendo que entre só um, porque, o que ficar aí fora, ainda se poderá safar...
Olharam um para o outro e ficaram sem palavras... Eu voltei para dentro para continuar o serviço de que me estava a ocupar...
Foram-se embora, e nós continuámos a fazer espetáculos... Nunca mais apareceram fiscais!...”

Voltando à sessão de encerramento e terminada a agradável conversa entre os convidados, foram apresentados os trabalhos vencedores do concurso, que se publicam em anexo a esta notícia, a que se seguiram três apontamentos dramáticos: o primeiro da responsabilidade dos alunos do 4.º ano da EB1-Igreja, muito bem orientados pela Prof.ª Lúcia, o seguinte preparado pela Ritus e o último pelo Grupo Cénico "Os Velhos".
Como não podia deixar de ser, a noite terminou com um aplauso dedicado a todos aqueles que participaram no teatro, em especial a uma figura ímpar cujo valor todos reconhecem: Manuel Soares Gomes.
A presidente da Associação convidou ainda todos os interessados a participar na Eucaristia do Domingo seguinte, onde se rezou por todos aqueles que se envolveram  ou envolvem ativamente na promoção do teatro em Milheirós. A Eucaristia foi presidida por D. Carlos Azevedo que revelou um carinho especial por esta atividade, lembrando a sua intervenção em algumas peças bem como a oferta de várias centenas de livros à biblioteca pública de Milheirós de Poiares.

Resta apenas dizer “Viva o Teatro em Milheirós de Poiares!”

4.º Concurso Conhecer Milheirós de Poiares

A Associação Abraçar Milheirós de Poiares está a organizar e a divulgar o 4.º Concurso Conhecer Milheirós de Poiares que tem por tema “O Teatro”
Pretende-se, desta forma, promover o conhecimento sobre esta terra, desenvolver o gosto pela escrita e pela fotografia. Assim, até ao dia 28 de fevereiro de 2017, conforme regulamento publicado, poderão todos os interessados entregar os trabalhos em mão aos elementos da Associação ou enviá-los por correio para Centro Comercial Dr. Crispim, Loja 7, 2º piso, Praça S. Miguel 3700-738 Milheirós de Poiares.


Entrega de prémios do 3.º Concurso Conhecer Milheirós de Poiares


A Associação Abraçar Milheirós de Poiares realiza no próximo sábado, dia 4 de junho, a cerimónia de entrega dos prémios do 3.º Concurso Conhecer Milheirós de Poiares que este ano teve por tema "A Minha Escola".
A sessão decorre, a partir das 21h00, no Centro Cultural de Milheirós de Poiares, contando com um painel que terá como interveniente o professor catedrático Joaquim Azevedo.
No decorrer desta cerimónia, serão homenageados os educadores de infância, professores do 1.º ciclo e funcionários aposentados.
 Destaque ainda para a presença no átrio de entrada de uma exposição intitulada "A Escola".


3.º Concurso Conhecer Milheirós de Poiares


A Associação Abraçar Milheirós de Poiares está a organizar e a divulgar o 3.º Concurso Conhecer Milheirós de Poiares que tem por tema A MINHA ESCOLA.
Pretende-se, desta forma, promover o conhecimento sobre esta terra, desenvolver o gosto pela escrita e pela fotografia. Assim, até ao dia 7 de maio de 2016, conforme regulamento publicado nesta página, poderão todos os interessados entregar os trabalhos em mão aos elementos da Associação ou enviá-los por correio para 

Centro Comercial Dr. Crispim, Loja 7, 2.º piso,
Praça S. Miguel 
3700-738 Milheirós de Poiares.



Trabalhos premiados | 2.º Concurso Conhecer Milheirós de Poiares

No dia 26 de junho de 2015, no auditório do Centro Cultural de Milheirós de Poiares, foram divulgados os trabalhos premiados no âmbito do 2.º Concurso Conhecer Milheirós de Poiares.


Modalidade - fotografia

1.º ciclo de escolaridade


Fonte dos Desejos
Gonçalo, Inês, Iva, Ivo, João Paulo, Matilde Talhas, Rita
3.º ano, EB1 Igreja
Milheirós de Poiares


Refúgio
João Pedro, Leonardo, Mafalda, Matilde Jorge, Sara, Tânia, Sandra
3.º ano, EB1 Igreja
Milheirós de Poiares
Fonte das Quatro Bicas
Américo Pinho, Ana Filipa, Beatriz Amorim, Bernardo Tavares, Bruna Almeida, Daniela Ferreira, David Rodrigues, Fabiana Leite, Filipe Silva, Henrique Moreira, Ivo Cruz
4.º ano, EB1 Igreja

Milheirós de Poiares


Adultos

No limite do tempo – A Luz
Bruno Miguel Graça Santos Pinho
32 anos, Engenheiro Informático



Modalidade - narrativa

3.º ciclo de escolaridade


Um Abraço que chegou tarde

Manuel Santos pede ao taxista para encostar o carro ali. Ainda se recorda da padaria do Pereiro apesar de ter emigrado durante cerca de 50 anos. Acaba de chegar do Brasil e nem sequer sabe ainda se tem cá família viva.
Entra no estabelecimento, come um bolinho e toma um café. Está ansioso por saber se a padaria ainda pertence ao Sr. Manuel Padeiro. Manuel decide ficar ali sentado durante algum tempo para ver se reconhece alguém que vá entrando. Manuel trabalhara na Molaflex entre 1960 e 1965, ano em que decidiu emigrar para o Brasil, convidado por um tio que explorava o negócio de padarias em Belo Horizonte.
Mas sem mais demoras decidiu avançar com uma pergunta a uma das empregadas:
- Esta padaria ainda pertence à família do Sr. Manuel e da Sr.ª Encarnação?
A empregada  fica surpreendida com a pergunta do homem e  responde:
- Esta padaria já não é dos donos que o senhor conheceu. Esses senhores já faleceram há  uns anos. Mas afinal quem é que o senhor   procura?
O homem não responde,  fica  em silêncio com ar pensativo, mas a empregada insiste.
- O senhor afinal para onde vai? Está aqui há mais de uma hora,  é quase meio dia e onde é que vai almoçar?
- Os senhores servem aqui refeições? - pergunta o “brasileiro”.
- Sim pequenas refeições... Uma sopa e mais qualquer coisa - responde a empregada.
- Então traga-me uma sopa e um prego no prato.
Enquanto esperava pela  refeição entra um senhor que Manuel parece reconhecer e dirige-se a ele:
- Ouve, tu não és o Augusto Tavares?
Este fixa o homem por uns momentos e,  apesar de não se verem há  tantos  anos, dispara:
 - E tu não és o Manuel Santos...Pois és!
Abraçaram-se, ficaram ali por uns momentos quase sem palavras até que o Augusto lhe diz:
-Olha que pensava-se por cá que já tinhas morrido. Já se passaram tantos anos sem notícias.
- É verdade que não dei notícias mas também não recebi notícias. Por isso vou precisar que me contes tudo o que se passou por cá nos últimos 50 anos.
- Prometo. Mas ouve cá. Porque vieste só  agora que já não tens cá família viva?
- Estás a   dizer-me  que a  minha mãe já morreu ?
- É verdade - responde Augusto.
- Já previa, algo me dizia isso - diz Manuel  baixando a cabeça.
Fez-se um silêncio para logo de seguida Manuel  com voz determinada afirmar:
-  Mas,  para além da minha Mãe, há também uma razão muito forte para eu ter vindo a Portugal. Há  aqui  uma pessoa  a quem eu queria dar um abraço antes de morrer.
Entretanto a empregada que já tinha colocado a toalha e os talheres pergunta:
                  - Sr. Manuel, já posso começar a servir a refeição?
- Sim.
Acabada a refeição, Manuel  levanta-se  e vem até  cá fora fumar um cigarro e contemplar uma vista que  lhe era familiar, pois fora ali no lugar do Pereiro que nasceu e viveu até ir para o Brasil.
-  Olha... Ali  era o   estaleiro do Sr. Carlos Leão. Mas está tudo abandonado, possivelmente também já morreu. Construções  novas ali em baixo.  De quem serão?  Já não conheço nada - e mais uma vez interrogava-se - Será que fiz bem em vir ?  Com a  notícia da morte da minha Mãe,  sinceramente, que vim eu cá fazer? Mas eu tinha que vir por outra razão muito forte..
Augusto convida-o para ir a sua casa. Desceram e em 5 minutos estavam em casa de Augusto. A mulher deste, que já sabia da presença de Manuel e o esperava à entrada, convida-o para entrar,   cumprimentam-se , serve-lhe um cálice de vinho do Porto. A mulher de Augusto não esperou nem um segundo e perguntou:
- Então, Sr. Manuel,  conte-nos o que foi a sua vida lá pelo Brasil. Afinal o senhor  saiu de cá há 50 anos e nunca mais tivemos  notícias suas.
- Bom.  Seriam  precisas muitas horas, talvez dias para lhes contar a minha odisseia lá  pelo Brasil, mas vou tentar fazê-lo de forma resumida - afirma Manuel.
Já se tinham passado cerca de duas  horas quando Manuel, já com a voz arrastada pelo cansaço e também emocionado,  dá por terminada a narrativa, rematando:
- Aqui tiveram  de forma resumida o que foi a vida deste homem em cinquenta anos de Brasil.
- Pois estamos  admirados  por tudo o que nos contou - disseram quase ao mesmo tempo Augusto e a mulher - Foram de facto anos muito difíceis.
- Mas depois de tudo o que passaste por lá ainda tiveste forças para vir a Portugal? - perguntou Augusto que quis saber também o motivo muito forte para além da Mãe .
- Pois, amigo Augusto, a razão para vir a Portugal, para além da minha Mãe, é que eu não queria morrer sem vir dar um abraço ao Sr. Ruy Moreira, pessoa que jamais esquecerei.
Augusto e a Esposa trocaram um olhar, ficam arrepiados ao ouvir esta confissão e Manuel ao ver as suas expressões pergunta:
- Mas o que é que se passa?   Que reação estranha a vossa.
Augusto interrompe e não  o deixa continuar a falar:
- Manuel, não vai ser possível estares com o Sr. Ruy Moreira. Ele já faleceu.
Fez-se um silêncio prolongado, Manuel levantou-se deu alguns passos e exclama:
- Não é possível. Andei anos a preparar  esta viagem, com sacrifício, amealhei os reais necessários para a passagem e levo com este balde de água fria? Eu que agora, depois  de minha Mãe,  só tinha este objetivo, levo mais esta facada?
- Mas diz-me, Manuel,  por que razão tinhas esse objetivo?
- Augusto, eu sou um homem grato a quem me fez bem. Por isso  queria estar com o Sr. Ruy Moreira nem que fosse só para lhe dar um abraço  e agradecer-lhe os anos felizes que passei na Molaflex e o que fez por mim enquanto lá trabalhei. Foi  um amigo.  Lembro-me quando o meu  Pai esteve  doente e  o Sr. Ruy Moreira ter ido  ao meu encontro  para me  perguntar se havia dificuldades  em dinheiro para medicamentos. São atitudes que nunca esquecem.
Augusto e a mulher  que chegaram a trabalhar os dois na Molaflex iam acenando com a cabeça.
             - Eu, quando regressava à  Fábrica, depois de ter feito as entregas, como sabem, fui sempre motorista  de longo curso,  o Sr. Ruy Moreira,  sabendo  que eu estivera fora, vinha saber como tinha corrido a viagem - diz Manuel com a  voz embargada por estar a recordar estes momentos tão marcantes. E continuava - Passava por mim em qualquer lado da Fábrica, estendia a mão a  cumprimentar e a perguntar pela saúde da Família. Mas o que mais me marcou foram as palavras no dia em que me fui despedir.
- Então o que foi? - pergunta curiosa a mulher de Augusto.
- O Sr. Ruy Moreira contemplou-me e de seguida  disse algumas   palavras que me marcaram e acompanharam  estes anos todos. “ Vais  sair porque estás convencido que é a oportunidade da tua vida. Se continuares cá sei  que ficas contrariado e a  pensar que te cortei as pernas. Podia oferecer-te mais dinheiro para ficares, mas  não quero arrastar comigo esse peso. Mas há uma coisa que te digo.  No dia em que não te sentires realizado, seja em que parte for do mundo, nesse dia só tens que me contactar pois regressas imediatamente. Não quero que tenhas dificuldades  por  um só dia”.  Pois, amigo Augusto,  foram estas palavras que andaram comigo uma vida inteira. Quantas vezes tive  vontade de telefonar  principalmente  nos dias em que passei fome. Mas faltou-me coragem. Mas ouve,  há quanto  tempo  faleceu o Sr. Ruy Moreira?
- Morreu cedo, com 69 anos no ano  2000.  Já lá vão 15 anos - diz Augusto em voz baixa.
Foi então que Augusto aproveitou para contar a vida do Sr. Ruy Moreira e o sucesso da Molaflex após a saída de Manuel:
- Olha, Manuel,  a Molaflex nos anos sessenta atingiu uma dimensão enorme, estando nessa altura  no lote das maiores empresas do País. O Grupo Molaflex, que agregava dezenas de empresas dava emprego a mais de três mil pessoas. O Sr. Ruy Moreira era considerado um dos empresários de elite  com mais sucesso em Portugal.  O Grupo continuava a crescer e alargou  a sua área de negócios. Tinha Empresas em Angola, em Moçambique, em Espanha e por aí fora. Entretanto acontece a revolução do 25 de Abril e a  Molaflex como aliás todas as grandes empresas estavam com grandes investimentos. Há uma  forte instabilidade nos governos de então e alguns empresários, entre eles o Sr. Ruy Moreira, são perseguidos sem razão.
- E os empregados permitiram? - pergunta Manuel indignado.
- Nesses anos houve muitos exageros por parte dos militares que tinham o poder, mas em  boa verdade os empregados estiveram sempre ao lado do Sr. Ruy Moreira, mas  vivia-se um período revolucionário. Depois aconteceu  o falecimento inesperado do irmão Mário, a perda de saúde, os  desgostos por  tudo o que lhe fizeram. Viu-se assim na necessidade de vender parte do capital da Empresa.
- A Molaflex já não é da Família Moreira?
- Não . Eu agora não sei muito da Fábrica porque reformei-me e a empresa já nem  se chama Molaflex - responde Augusto - O capital agora é todo estrangeiro. E continua:
-Eu  vivi de perto muitos anos com a Família Moreira e especialmente com o Sr. Ruy Moreira, e  sei a grandeza deste Homem com H grande. O amor que tinha a Milheirós. A satisfação que tinha por saber que dava emprego a tantas famílias de Milheirós.  A disponibilidade que mostrava sempre que era necessário colaborar em qualquer iniciativa da Freguesia, fosse para a Escola ou para a Igreja ou sempre que lhe era pedido o espaço da Quinta do Seixal  para qualquer evento. Tinha uma grande  preocupação para que os filhos preservassem a Quinta.
- Onde é que está  sepultado o Sr. Ruy Moreira? - pergunta Manuel
- Aqui em Milheirós, em campa rasa, junto aos Pais - responde Augusto. -   A mesma simplicidade que foi sempre a sua vida. Foi um exemplo e acho que Milheirós ainda lhe deve uma homenagem.
- Já  que infelizmente  não consegui vir a tempo de lhe dar o tal abraço - diz Manuel -  Amanhã vou à  última morada prestar-lhe homenagem e como sou crente  vou lá rezar as minhas orações. 
- Pois sim -  diz Augusto – Anda dar umas voltas comigo  por Milheirós de Poiares que não tem nada a ver  com a terra que deixaste há cinquenta anos. Vais poder ver a  Escola EB2.3, o Centro Cultural com uma sala de espetáculos de fazer inveja a muitas das cidades, o Centro Comercial Dr. Crispim,  Complexo Desportivo onde mais de 200 jovens fazem formação e uma equipa sénior na 1ª Divisão do distrito de Aveiro, o Centro Social Dr. Crispim de apoio à infância e 3ª idade, um legado desse grande benemérito,  uma Unidade de Saúde. Na área cultural para além do Grupo de Teatro “os Velhos” do teu tempo,  temos um novo grupo com o nome de “RITUS”, o grupo “Canto Nosso” , Grupos de cavaquinhos, a Rusga que está a recuperar músicas tradicionais,  a  “Orquestra Milheiroense”, aproveitando  os conhecimentos dos jovens alunos que têm aulas de música nas Escolas,  orientada pelo jovem maestro Marcelo,  etc. etc.  Vais também ver uma  Freguesia com saneamento, gás e água canalizada. Vais constatar   que a nossa terra  nestes últimos 50 anos teve um grande desenvolvimento.
- De acordo- diz Manuel.  - Estou ansioso para  ir “Conhecer Milheirós de Poiares” de novo.

Gonçalo Oliveira Pinto
13 anos, estudante, 8.º ano



Adultos

“A Herança”

     Ruy Höfle de Araújo Moreira nasceu no Porto a 18 de maio de 1931, filho de Edith Auguste Elisabeth Höfle e de Eugénio Araújo Moreira, proprietários da Quinta do Seixal. Ruy Moreira desde muito novo viveu no convívio dos milheiroenses, vindo a habitar na quinta após o seu casamento com Maria João de Almeida Brandão de Carvalho, em setembro de 1955. Estão bem patentes na minha memória as visitas que eu e meu pai fazíamos à Quinta. Que alegria! Oito filhos desfrutavam da beleza daquele lar e das peripécias do Sr. Ruy.
Ruy Moreira foi sempre um homem empenhado na educação dos seus filhos mas também com grande mérito no seu trabalho. Depois de terminar brilhantemente a sua licenciatura na Universidade Internacional com o curso ligado ao mundo empresarial, teria uns vinte anos quando entrou para a Molaflex, empresa criada pelo seu pai nos anos cinquenta. Com o seu empenho e dinamismo e com a sua prestação nesta empresa ao lado de seu irmão Mário e outros familiares, registou-se um crescimento tal que em pouco tempo tiveram a necessidade de aumentar a empresa empregando mais gente, chegando a atingir cerca de mil trabalhadores nos anos sessenta.
Recordo-me da viagem a São João da Madeira do Presidente da República e outras entidades para visitarem a Molaflex afim de condecorarem Ruy Moreira pelo seu dinamismo e visão futurista, um empresário muito jovem com projetos impensáveis nos anos sessenta. Foi um homem de um coração muito solidário, só estava bem consigo sabendo que os seus trabalhadores estavam a viver bem. Homem lutador e sempre a pensar no bem dos seus funcionários. Criou financiamentos para a construção de habitações, criou um posto médico dentro das suas instalações, criou um subsídio para o final de ano, sempre acompanhando de perto as pessoas que o rodeavam. Aquele homem de H grande merece um obrigado de todos os que o conheceram e partilharam a sua amizade.
Mas... há sempre um mas... com a continuidade da revolução dos cravos a Molaflex sofreu alguns desequilíbrios financeiros como tantas outras empresas, mas nada que pusesse em perigo a manutenção da mesma. Mas... há sempre um mas... alguns revolucionários de "meia tigela" não ficaram bem com a sua consciência miserável enquanto não mandaram Ruy Moreira para a prisão. Até hoje nunca compreendi porque foi preso! A empresa Molaflex sofreu muito com a sua ausência mas este foi lutando até às últimas consequências, sendo libertado dez meses depois de ter passado grande sofrimento e humilhação. Sim, humilhação, com ataques à sua personalidade, obra de alguns cobardes a quem, alguns anos antes, Ruy Moreira tinha tirado a “lama das unhas”.
Quero aqui expressar o pouco que conheci de Ruy Moreira, mas para mim significa muito, pois tive o privilégio e a honra de conversar e negociar com um bom amigo, um bom chefe de família, um excelente empresário, exemplo de gestor no meio empresarial, e, sobretudo, um homem com um coração enorme.
Obrigado, Ruy Moreira, pela herança que nos deixaste.

Serafim Silveira
63 anos, reformado



Umas Férias de Verão

O ano escolar estava mesmo a terminar. As férias de Verão aproximavam-se e muitos momentos de diversão e alegria estavam completamente garantidos.
Os dias passados em casa da minha avó Albertina eram sempre dias de descoberta, de partilha, de felicidade. Eram dias de longas conversas e trabalhos no campo e no mato a apanhar pinhas e “pauzinhos”, pequenos paus que eram muito úteis para acender a lareira e fazer umas boas brasas para assar as sardinhas. O meu avô, esse ficava muito grato, pois adorava batatas cozidas e sardinhas assadas. Eu lá ia tentando encontrar no meio das espinhas um pouco de sardinha para misturar com as batatas esmagadas. Tudo isto passava-se à volta da lareira com o prato nas pernas, o que para mim era uma verdadeira aventura.
Uma noite ao jantar eu e a minha irmã fomos surpreendidos pelos meus pais com uma informação interessante. As férias de Verão iam este ano ser diferentes! A Junta de Freguesia ia organizar um campo de férias. Os meus pais estavam envolvidos na organização desta atividade. Eu já estava inscrito, mesmo sem ter sido consultado. Era preciso ocupar de forma saudável as longas férias de Verão, dizia o meu pai.
Que aborrecimento! Lá se iam os meus dias de liberdade em casa da avó Albertina. Observei a minha irmã e não me parecia nada animada. Ao contrário de nós, o meu pai estava entusiasmadíssimo. Lá continuou a explicar tudo sobre as férias. Seriam duas semanas, durante o dia todo e iriam decorrer na Quinta do Seixal. Alguns escuteiros, caminheiros que são os mais velhos, do Agrupamento 640 de Santa Maria da Feira seriam os monitores das atividades. Os dias deveriam ser preenchidos com jogos, fóruns, visitas pela Quinta, atividades livres e uma atividade cívica, iríamos limpar os caminhos internos da Quinta.
O meu olhar cruzou-se de novo com o da minha irmã e logo me animei. Nessa noite juntámo-nos no meu quarto e conversamos longamente e um pouco eufóricos. As férias iam mesmo ser diferentes! A ideia de conhecer a Quinta do Seixal e o dono, o Senhor Ruy Moreira, pessoa de quem os meus pais falavam com muita admiração, deixou-me animado e até ansioso.
O grande dia chegou! Bem cedo, cheguei junto do portão principal da Quinta. Já lá estavam algumas crianças minhas conhecidas. Os monitores das férias também eram meus conhecidos porque eu era escuteiro no Agrupamento da Feira. Estava por isso muito confiante. Lá estavam os meus pais, o Senhor Melo, o Senhor Fernando (o caseiro) a conversar com os monitores.
Finalmente, tudo a postos para a grande aventura. Mochilas às costas e lá partimos para o campo de futebol, que iria ser o nosso Quartel General durante quinze dias. Os dias eram ocupados com jogos, caminhadas, longas conversas sobre a Natureza e a necessidade de a proteger, limpeza dos caminhos, brincadeiras livres e um banhinho ao meio da tarde no tanque próximo do campo.
A hora do almoço era um momento alto. O Café do Ti Albino enchia-se de crianças barulhentas para se lambuzarem de batatas fritas e bifes sem qualquer reparo das mães. Estes momentos tão importantes deviam-se também à boa vontade do Senhor Ruy Moreira que pagava os almoços do campo de férias.
Ao fim de três dias de grande animação tivemos finalmente a visita do Senhor Ruy. Todos preparados para receberem o homem que nos estava a possibilitar umas férias que prometiam ser inesquecíveis.
Surgiram ao fundo da grande avenida dois homens. Um era o Senhor Fernando, que todos os dias nos recebia no início do dia. O outro, era o Senhor Ruy Moreira. Estávamos todos em silêncio. Íamos conhecer uma pessoa importante. O dono da Quinta do Seixal, que vivia no Porto, que tinha muitos negócios e que já nos tinham dito que tinha um profundo amor à quinta e ás árvores nela existentes. Quando se aproximou olhei com muita curiosidade e também admiração. Afinal eu parecia-me com ele. Ele era alto tal como eu e magro também como eu. Os meus colegas que se riam de mim na escola por eu ser muito magrinho ficavam agora a saber que eu por ser assim também poderia vir a ser importante como ele.
Gostei mesmo dele! Bem vestido, de fato e gravata, um porte elegante, um olhar meigo e penetrante. Quando começou a conversar connosco percebi que tinha um timbre de voz doce e cativante.
Fizemos a primeira visita guiada à Quinta, com explicações muito pormenorizadas sobre as mais de cem espécies de árvores existentes na propriedade. Como amava aquela Quinta! Que paixão evidenciava ao falar das árvores!
Nessa noite tive dificuldade em adormecer. Aquele homem impressionou-me. Tinha cedido a Quinta, pagava os almoços. Ia acompanhar-nos ao longo das férias, vinha da Foz, Porto, para estar com um grupo de crianças de Milheirós de Poiares, a terra natal do seu pai. A cada dia mostrava-se agradado com o trabalho cívico que íamos realizando. Já poderíamos carregar para o trator do Senhor Fernando os resíduos dos caminhos.
A meio das férias, o Senhor Ruy lançou-nos novo desafio. Por cada pinha que apanhássemos pagar-nos-ia 1 escudo. Claro que nos entusiasmamos com a possibilidade de ganharmos uns tostões nas férias. Todos os dias partíamos em grupos organizados para a apanha das pinhas. Íamos para a zona de pinheiros e eucaliptos e aí apareciam-nos coelhos bravos à solta à caça das pinhas.
As férias continuavam a deixar-nos a todos exaustos mas felizes. O Senhor Ruy mostrava-se também alegre e sempre muito entusiasmado a cada incursão pela Quinta. As grandes e velhas árvores, os simples arbustos, os caminhos, a casa, a capela, tudo despertava no senhor uma grande emoção.
Até eu, um simples miúdo de oito anos estava apaixonado por aquela enorme e bela Quinta, que eu já sentia como um pouco minha. Num dos dias em que prestávamos conta do trabalho realizado e dos sacos de pinhas já cheios, o Senhor Ruy explicou-nos que a mata de pinheiros e eucaliptos existente a poente era muito importante, servia de barreira e proteção das diversas espécies de árvores existentes.
Numa outra visita falou-nos de uma outra paixão, a água. A Quinta era atravessada por várias linhas de água que abasteciam tanques de rega, a piscina e a habitação. Disse-nos ainda que desde longa data que a Quinta tinha sempre os portões abertos e a entrada livre para que a população do lugar pudesse ir buscar água para consumo.
Sensibilizou-nos para a importância da água potável e a necessidade de sermos previdentes na sua proteção e gestão. Segundo ele, a água iria ser no futuro um bem escasso.
Não visitamos o interior da casa, mas falou-nos dela com sentimento. Era uma casa de família, de gerações, pais, filhos, netos e bisnetos. Da capela apenas nos disse que não era uma capela de família mas sim uma capela da paróquia. Ali sempre se celebrou missa para o povo da freguesia.
Os dias passaram tão rápido que quando tomei consciência que tudo iria terminar no dia seguinte senti-me triste e dei por mim a pensar que tinham sido umas férias de Verão inesquecíveis, foram uma verdadeira aventura de Verão na Quinta do Seixal.
De repente, dei-me conta que não tive tempo de ter saudades da minha avó Albertina. Mas era muito esperta, já tinha percebido, quando lá passava à noite, que o seu neto estava feliz com as férias na Quinta.
Agora, com distância de vinte anos agradeço ao Senhor Ruy, à Junta de Freguesia e a todos os que tornaram possíveis aquelas férias.
A verdade porém é que as férias na avó Albertina sempre foram maravilhosas!
Obrigado Avó!

Tiago José Rodrigues de Almeida
29 anos, Enfermeiro



Alguns traços da figura de RUY HÖFLE DE ARAÚJO MOREIRA (1931-2000)


Recebemos um precioso contributo sobre RUY HÖFLE DE ARAÚJO MOREIRA da autoria do Sr. Eugénio Resende de Bastos que, de seguida, publicamos. É um excelente documento que poderá informar todos aqueles que valorizam a história desta terra. Além disso, será, com certeza, fonte de inspiração para quem pretende participar no 2.º Concurso Conhecer Milheirós de Poiares.



Alguns traços da figura de RUY HÖFLE DE ARAÚJO MOREIRA (1931-2000)


Nasceu no Porto, em 18 de Maio de 1931, onde sempre residiu, filho de Edith Auguste Elisabeth Höfle (de origem alemã), e de Dr. Eugénio de Araújo Moreira; com as suas raízes na família ALVES MOREIRA, do Seixal, Milheirós de Poiares. Daí a sua forte ligação a esta terra onde, desde criança e com regularidade, permanecia por períodos mais ou menos longos, na Quinta do Seixal, propriedade da família. Esta proximidade com Milheirós de Poiares e com as suas gentes foi continuada e reforçada ao longo de toda a sua vida e, ainda hoje, perdura viva através da sua esposa, D.ª Maria João de Almeida Brandão de Carvalho, com quem casou em 10 de Setembro de 1955, dos seus oito filhos e netos. A Família Moreira e a Quinta do Seixal continuam bem presentes na memória, no coração e na geografia desta terra e dos seus habitantes.

É impossível falar de RUY MOREIRA sem o associar, de imediato, à empresa MOLAFLEX.

Esta empresa foi constituída em Julho de 1951, tendo como fundadores o seu pai, Dr. Eugénio de Araújo Moreira e outro sócio de origem alemã, Senhor Siegfried Weinberg; por essa altura o filho Ruy, tendo completado vinte anos de idade, estava na força da sua juventude e no auge da sua preparação académica: “Licenciatura Business Administration na Universidade de Leeds - Reino Unido”; “Estágios em “shipping” - Londres, Antuérpia, Rotterdam”; domínio “escrito e falado em Português, Alemão, Francês, Inglês e Espanhol”. Era esse o momento certo para a sua entrada no mundo dos negócios. E assim aconteceu: no ramo industrial, ingressando na empresa MOLAFLEX – Molas Flexíveis, Ld.ª – S. João da Madeira; no ramo dos serviços e dos transportes marítimos, na empresa E. A. Moreira - Agentes de Navegação, SA. – Porto.

Mas, desde logo, foi na MOLAFLEX onde o seu tempo, as suas capacidades e a sua ação se tornaram mais evidentes.

No início a empresa tinha como “principal objetivo a fabricação de molas para estofos e coxins ou carcaças de molas”, desenvolvendo a sua “atividade numa pequena cave alugada (200 m2 aproximadamente), em S. João da Madeira”; para além da sua empenhada colaboração, dispunha apenas dos serviços de mais dois empregados e cinco operários. Só a partir de “Janeiro de 1954, foi iniciado então o fabrico e comercialização de colchões de molas, atingindo a produção diária de cinco unidades, em Agosto de 1955”; seguiu-se, em 1956, a concretização do projeto destinado ao arranque da produção de estofos para as Carruagens dos Caminhos-de-ferro; nesse mesmo ano foi decidido iniciar a construção do primeiro grupo de edifícios próprios, com uma área de 1.700 m2, na futura Zona Industrial do Orreiro, em S. João da Madeira; a respetiva inauguração ocorreu em 15 de Novembro de 1957. Nessa altura a produção de colchões de molas atingia já as vinte e cinco unidades/dia e o quadro de pessoal ao serviço subia para cinquenta trabalhadores, sendo vários deles naturais e/ou residentes em Milheirós de Poiares.

Continuando sob a dinâmica e o comando de Ruy Moreira, a MOLAFLEX manteve um ritmo de crescimento constante, aumentando a produção dos artigos já existentes e desenvolvendo novos produtos, com destaque especial para o fabrico de Molas Técnicas para a indústria (em 1959), Estofos para Automóveis (em 1962), bem como a constituição de novas empresas associadas, nomeadamente: EDAL – Estofos de Angola, Ld.ª – Luanda (em Dezembro de 1957); GAMETAL – Metalúrgica da Gandarinha, Ld.ª - Cucujães (em Julho de 1963); FLEXIPOL – Espumas Sintéticas, Ld.ª – S. João da Madeira (em Abril de 1964); FLEXITEX – Fábrica de Tecidos, Ld.ª – S. João da Madeira (em Novembro de 1965). 

O rápido crescimento das atividades desenvolvidas pela MOLAFLEX implicou, simultaneamente, a necessidade de adequar as suas estruturas organizativas, aumentar o quadro de pessoal, alargar a área dos terrenos, ampliar as instalações existentes e adquirir novas máquinas e equipamentos. Em 1966, ano das comemorações do XV Aniversário da fundação da empresa, registavam-se os seguintes indicadores: área dos terrenos: 29.000 m2; área coberta: 12.000 m2; número de empregados: 856; potência instalada, em KW: 709. Entretanto tendo já ocorrido o falecimento dos sócios fundadores foi decidido alterar o pacto social e aumentar o capital de 200 para 5.000 contos, repartido pelos herdeiros das respetivas famílias. Foi então criado um Conselho de Administração, presidido pelo sócio Ruy Höfle de Araújo Moreira, tendo como Vogais os sócios: Eng.º Mário Höfle de Araújo Moreira (irmão); D. Grete Höfle (tia) e Máximo Dário Becker Weinberg (filho do sócio falecido). Procedeu-se, também, a uma reorganização geral da empresa e à elaboração do seu organigrama, composto por várias Direções, Departamentos e Serviços, sendo nomeados os seus responsáveis e definidas as respetivas competências. O notório desenvolvimento, o crescimento dos volumes de produção e faturação (com destaque para as atividades dos colchões - 200 unidades/dia - e dos Estofos para Automóveis), o aumento do emprego e das novas tecnologias aplicadas, posicionaram a empresa num nível elevado da economia industrial do país, com impactos muito importantes no âmbito local e regional, sendo já considerada uma das maiores empresas do Concelho e do Distrito.

Daí que, as comemorações do XV Aniversário da MOLAFLEX, cujas cerimónias oficiais ocorreram em 25 de Outubro de 1966, tenham atraído a presença do Presidente da República Portuguesa, vários Ministros e Secretários de Estado, Governador Civil de Aveiro, Presidente da Camara Municipal de S. João da Madeira, além de outras altas individualidades. Nessa oportunidade, o Presidente do Conselho de Administração da empresa, no seu estilo envolvente e partilhado, dirigiu palavras de saudação “não só em nome da Administração mas também em nome de todos os colaboradores, empregados e assalariados com quem tanto nos prezamos de viver o dia-a-dia, em paz, tranquilidade e mútua compreensão, condições essas que têm sido a base da nossa razão de ser e da nossa expansão”. Após esta referência ao clima laboral favorável vivido na empresa, prosseguiu com alguns esclarecimentos, realçando o facto de se tratar de uma “empresa jovem, em que a média das idades dos seus 800 colaboradores diretos não chega a atingir os 27 anos, refletindo o espirito da nova geração industrial portuguesa”. Mais adiante, referiu a preocupação e a aposta da empresa no desenvolvimento dum Programa de Politica Social, exemplificando: “temos dedicado o melhor da nossa atenção… e mesmo para além do cumprimento das leis temos procurado dar um carácter humano nas relações entre dirigentes e dirigidos. São disso exemplo: A construção deste Pavilhão Social; O transporte ao domicílio do pessoal que trabalha em turnos; Criação e manutenção do Posto de Telescola; Treinos e estágios de pessoal no estrangeiro; Pagamento de propinas e material didático para frequência de cursos industriais; A atribuição de gratificações no fim do ano procurando interessar todos nos lucros da empresa; Prémios de produção e de assiduidade ao trabalho; Criação de condições de trabalho para além dos mínimos legais; Financiamento para a construção de habitações; Assistência médico-social permanente; Planeamento de uma ação social extensiva às famílias”. A empresa MOLAFLEX mantinha na região uma política pioneira na aplicação de vários benefícios sociais facultativos aos seus trabalhadores, com destaque para “a gratificação no fim do ano” que poderá ter sido o embrião do “Subsídio de Natal” e de outros benefícios só muito mais tarde instituídos, oficialmente, a nível nacional. Outras informações foram prestadas pelo Presidente do Conselho de Administração da MOLAFLEX, Senhor Ruy Moreira, referindo os aspetos técnicos e económicos envolventes, realçando a importância da empresa no contexto da economia nacional ao produzir os componentes para incorporar na indústria automóvel, baixando assim as necessidades de importações desses produtos. Antes da visita guiada às instalações, com a participação de todos os convidados, o Chefe de Estado proferiu palavras de agradecimento e acrescentou: “Não há dúvida que estou numa empresa jovem, mas ao mesmo tempo modelar e isso deve-se à vontade de quem a tem dirigido…”; e, em reconhecimento do mérito do empreendimento na pessoa do Senhor Ruy Moreira, continuou: “vou ter o prazer de colocar ao seu peito a condecoração que de muito boa vontade concedi com a convicção plena de que o fiz com o máximo da justiça”.
                                          



Para além desta distinção com a “Comenda de Mérito Agrícola e Industrial”, seguiu-se, mais tarde, em 1972, a atribuição da “Medalha do Infante D. Henrique”.

A aposta no crescimento das atividades produtivas nas várias empresas já existentes, não impediu que fossem ainda constituídas novas sociedades, a saber: POLIANG – Poliuretanos de Angola, Ld.ª – Viana/Angola (em 1969); FIBREGLASS – Moçambique, Ld.ª – Lourenço Marques em 1971); AMOC – Sociedade Açoreana de Colchões e Móveis, Ld.ª – Angra do Heroísmo (em 1972).

Contudo, a principal empresa em dimensão, número de empregados, volume de faturação, novos investimentos, aumento da área coberta dos edifícios, envolvimento de capital… continuava a ser a MOLAFLEX – Molas Flexíveis, Ld.ª – S. João da Madeira. O crescimento desta empresa e o elevado nível de investimentos realizados para responder à sua expansão evidenciavam a necessidade dum reforço dos seus capitais próprios, como forma de atenuar o endividamento bancário. Foi assim que, em finais de 1973, foi decidido alterar o seu pacto social, de sociedade por quotas para S. A. (Sociedade Anónima). A subscrição do aumento de capital, para além de envolver os atuais sócios, foi também aberta aos trabalhadores, aos clientes e aos fornecedores da empresa, em condições preferenciais, (efeitos da socialização do capital da empresa). Este plano pretendia agregar à volta da empresa, em esforço conjunto, as suas principais forças dinamizadoras: os detentores do capital; a força do trabalho; a dinâmica comercial/mercado; e os credores da empresa. Para pôr em prática este plano foi necessário algum tempo destinado a reuniões de informação e esclarecimento junto dos eventuais interessados, realizadas em várias localidades do país. Esta ação, apresentando o plano e disponibilizando “Boletins de Subscrição de Capital” para serem preenchidos e entregues pelos interessados, foi coordenada e dinamizada pelo Senhor Ruy Moreira, figura principal da empresa e seu representante máximo, acompanhado por outros Administradores e colaboradores. Decorridos alguns meses, já em 1974, foi formalizada a transformação da sociedade e o aumento do seu capital social, com a estrutura acionista previamente delineada, sendo então efetuada a escritura de alteração do pacto social e alterada a denominação da empresa para: INDUSTRIAS MOLAFLEX, SA.

Paralelamente à implementação desta nova fase da vida da empresa deu-se a revolução do 25 de Abril de 1974: acontecimento marcante na conquista das liberdades, embora sujeito a uma longa caminhada de aprendizagem, quer no exercício da cidadania, quer nos comportamentos de âmbito individual e coletivo… Os efeitos deste importante acontecimento foram sentidos, de imediato, em todas as estruturas do país: política, económica, social, laboral, empresarial…; seguiram-se tempos de acentuadas convulsões sociais, forte retração económica e significativa redução de encomendas, sobretudo numa empresa como esta cuja atividade principal estava voltada para a indústria automóvel e com total dependência do mercado interno. Para além da instabilidade e das dificuldades económicas vividas a nível nacional, foram introduzidas grandes alterações nos impostos, penalizando fortemente o automóvel e dificultando a sua comercialização em Portugal. Com esta situação adversa ao nível do mercado, a estrutura da empresa, sólida e em franco crescimento, envolvendo muitas centenas de postos de trabalho, transformou-se numa estrutura em crise, com resultados negativos, aumento do endividamento e excesso do número de trabalhadores. Tudo isto foi fortemente agravado com os acontecimentos ocorridos em 11 de Março de 1975 que ditaram a nacionalização da Banca, a ocupação das terras e a expulsão dos grandes proprietários agrícolas (a chamada Reforma Agrária), bem como a nacionalização de muitas empresas industriais e a perseguição política de muitos dos seus acionistas e administradores. Estas intervenções, de cariz ideológico, tinham como objetivo coletivizar os meios de produção do país, atingindo as empresas consideradas mais rentáveis e com maior peso económico. Foi assim que, na MOLAFLEX, ocorreu a detenção do seu principal acionista e Presidente do Conselho de Administração, Senhor Ruy Moreira, por mandado do Conselho da Revolução. Os meses que se seguiram a estes episódios foram vividos na empresa com grandes preocupações e incertezas, quer quanto à sua viabilidade económica quer quanto à manutenção dos postos de trabalho. Tudo isso, aliado à falta de informações sobre os fundamentos e a continuidade da detenção do referido Administrador no Estabelecimento Prisional de Custóias, fez com que os trabalhadores, em Plenário e por maioria, decidissem organizar uma manifestação pública, frente ao Quartel-General Militar, no Porto, com o objetivo de serem elucidados sobre os motivos da permanência de tal detenção, considerada injusta. A concretização dessa decisão, que mobilizou cerca de 1.200 trabalhadores da empresa, foi mal aceite pelos poderes militares, incluindo o Comandante da Região Militar Norte, por a considerarem uma ameaça à dinâmica vigente vivida pelo PREC (Processo Revolucionário em Curso); além disso, tal manifestação suscitou algumas interrogações: como era possível que tantos trabalhadores se manifestassem a favor da liberdade dum patrão? Quem estaria por detrás dessa organização? Daí resultaram várias consequências imediatas: rejeição da proposta de audiência a uma delegação dos trabalhadores, encabeçada pelo seu Presidente da Comissão de Trabalhadores; expulsão violenta, das instalações do Quartel-General, do referido representante dos trabalhadores, seguida da sua detenção e posterior transferência para a prisão de Custóias, onde permaneceu cerca de quinze dias; mobilização popular de uma contra manifestação, organizada ao fim da tarde, com intervenção de forças civis adversas, em conluio com forças militares, para hostilizar e dispersar os trabalhadores; transferência secreta, durante a noite, da prisão de Custóias para a prisão de Caxias, do Administrador detido, onde permaneceu até perfazer cerca de dez meses, acabando por ser libertado sem qualquer culpa formada e sem julgamento; ocupação militar das instalações da empresa, em S. João da Madeira, no início da manhã do dia seguinte, por militares armados; suspensão das funções dos membros do Conselho de Administração da empresa e nomeação duma comissão de gestão, de cariz militar; congelamento de todas as contas bancárias da empresa e das contas pessoais de todos os seus Administradores e Procuradores. Os meses que se seguiram a estes acontecimentos, com a presença dos militares na gestão da empresa, organização de “campanhas de mentalização ideológica” junto dos trabalhadores por elementos da “célebre” 5.ª Divisão do MFA - Movimento das Forças Armadas, ameaças veladas de saneamentos, inquirições pessoais improvisadas, tentativas de confrontação entre trabalhadores afastando uns e promovendo outros para os seus lugares… geraram um clima de desconfiança e mal-estar generalizados.

Entretanto, a situação social, política e económica do país continuava instável e complexa, com manifestações e posições contraditórias. Foi assim que, começando no Norte e estendendo-se depois a quase todo o país, se gerou um fenómeno de hostilidade contra várias forças políticas mais extremistas algumas delas com práticas e intervenções armadas; as ações eram organizadas e participadas por grupos de cidadãos, incendiando e destruindo as sedes dessas Organizações e impedindo a sua continuidade nas várias localidades. Estes acontecimentos foram designados como “Verão Quente de 1975”. Algum tempo depois de todas estas ocorrências, os militares deixaram a empresa e deu-se a retoma de funções por parte da Administração legítima (embora sem a presença do seu Presidente, Ruy Moreira, que permanecia, incompreensivelmente, detido). A MOLAFLEX continuava a viver uma situação de dificuldades acrescidas, resultantes da insuficiência de encomendas, do excesso de mão-de-obra, do peso dos encargos fixos e da degradação da sua estrutura financeira; também os encargos financeiros atingiam valores incomportáveis, devido ao excessivo montante do endividamento e às elevadas taxas dos juros cobrados pelos Bancos, que chegaram a ultrapassar os 20%. Nos anos que se seguiram foi necessário encontrar soluções de contenção e de reajustamento das estruturas da empresa, adequando-as às realidades do mercado; a mesma exigência foi colocada quanto ao passivo bancário, sendo elaborado um plano concreto para negociação com os principais credores que, entretanto, veio a ser formalizado através dum instrumento legal designado por “Contrato de Viabilização”, assinado com os principais Bancos credores, adequando os montantes da dívida, os prazos e os juros às previsões mais realistas da empresa.

Na mesma linha de preocupação sobre o futuro da empresa, os principais acionistas decidiram negociar com o empresário Jorge Melo (Ex - CUF) a sua entrada num aumento do capital da MOLAFLEX, sendo este realizado através da mobilização de “Títulos de Indemnização” por ele detidos, como resultado das indemnizações atribuídas pelo Estado em consequência das nacionalizações de várias empresas que pertenciam à “Família Melo”. O montante subscrito no aumento de capital da empresa foi aplicado na redução do seu passivo bancário, aliviando assim, os correspondentes encargos financeiros. Fruto dessa parceria o novo acionista entrou para a empresa em Maio de 1982, com o direito a nomear três Administradores. O novo Conselho de Administração passou a ser constituído por elementos de ambos os grupos mas sem a participação direta do Senhor Ruy Moreira. Mesmo assim os anos que se seguiram não foram fáceis: a empresa continuava com uma atividade reduzida, com escassez de encomendas, e, apesar de terem sido introduzidos alguns reajustamentos, quer na redução do número dos seus efetivos quer na sua estrutura geral, os resultados mantinham-se insuficientes. Esta parceria durou até finais do ano de 1987, altura em que, segundo o contrato existente, o Senhor Ruy Moreira decidiu “readquirir uma posição acionista rigorosamente paritária em relação ao outro grupo acionista” e retomar a correspondente posição na gestão da empresa. Concluídas tais negociações, ficaram reunidas as condições para vender a maioria do capital da empresa a um Grupo Francês, denominado Bertrand Faure, com o qual já existiam outras participações de capital, conjuntas, em duas sociedades portuguesas (FLEXIPOL e GAMETAL). Este Grupo exercia uma atividade industrial semelhante à da MOLAFLEX (nomeadamente: fabrico de colchões de molas e bancos para automóveis), embora com uma dimensão e um volume de negócios bastante superiores. Nesta altura a MOLAFLEX já tinha entrado no mercado de exportação e, desta forma, o Grupo Francês agregou um concorrente, passando a ter uma posição internacional mais abrangente.

No início de 1988 o Grupo Bertrand Faure assumiu, então, o controle e a gestão da empresa, na posição de principal acionista (mais de 90%), vindo mais tarde a adquirir, por direito, o restante capital, atingindo os 100%. O Senhor Ruy Moreira apesar de ter deixado de pertencer à MOLAFLEX disponibilizou sempre aos novos proprietários, com os quais mantinha, desde há muito, uma grande proximidade, toda a melhor colaboração e apoio. Certamente que nas suas principais preocupações aquando da alienação da empresa, teve sempre presente a garantia da continuidade laboral em Portugal e a manutenção dos postos de trabalho. De facto, assim aconteceu. Tratando-se de um Grupo internacional altamente credenciado, conhecedor do ramo de negócio, concretamente do mercado da indústria automóvel desencadeou, de imediato, várias ações importantes para o relançamento da empresa, nomeadamente: saneamento financeiro, com um significativo aumento de capital; diminuição do endividamento bancário e dos juros suportados; reestruturação dos vários Serviços, atribuindo maior autonomia e responsabilidade a cada área de atividade; aquisição de novos equipamentos e reconfiguração do “layout” industrial; articulação da dinâmica comercial estabelecendo uma política conjunta inter-grupo; disponibilização de “know-how”; certificação de qualidade a nível internacional e junto dos principais construtores mundiais do ramo automóvel… Estavam garantidas as condições para o desenvolvimento efetivo da empresa que, em 1989, passou a denominar-se: BERTRAND FAURE PORTUGAL, SA. A internacionalização da empresa e do seu capital representaram uma mais-valia muito significativa, de tal maneira que, decorridos poucos anos, readquiriu a necessária saúde económica e financeira, passou a gerar resultados altamente favoráveis, aumentou o número de trabalhadores e, dentro do conjunto do GRUPO BERTRAND FAURE, granjeou um estatuto de prestígio tecnológico, de gestão e de rácios de rentabilidade destacáveis. A dinâmica introduzida pelo GRUPO BERTRAND FAURE nesta empresa Portuguesa, acompanhou o crescimento do próprio Grupo a nível internacional, com uma forte aposta no ramo automóvel. Com este objetivo foram destacados e vendidos os negócios e participações em empresas cujas atividades não se enquadravam nesse ramo, tanto em França como em Portugal.

As alienações em Portugal foram: atividade de colchoaria, a um Grupo Espanhol, após ter sido constituída uma empresa autónoma designada MOLAFLEX COLCHÕES, SA; atividade de molas técnicas, a um grupo Alemão, depois de ter sido constituída uma empresa autónoma designada MOLTEC, Ld.ª; participação na empresa FLEXIPOL, a um grupo Espanhol; participação na empresa GAMETAL a um Grupo Alemão. Todas estas empresas continuaram a desenvolver as suas atividades em Portugal, gerando emprego e criando riqueza no país. Os valores resultantes das alienações foram totalmente reinvestidos em Portugal no desenvolvimento da atividade relacionada com a indústria automóvel, na qual o Grupo decidiu concentrar toda a sua atividade. Ainda nesta linha de crescimento o Grupo BERTRAND FAURE e o Grupo ECIA, ambos Franceses (este último ligado à multinacional Francesa PSA - PEUGEOT/CITROEN) acertaram em efetuar uma fusão, dando lugar ao nascimento do Grupo FAURECIA; este Grupo, com sede em França, pela sua dimensão passou a ser o maior produtor europeu de bancos e outros componentes para a indústria automóvel, sendo, simultaneamente, o quinto maior Grupo mundial nesse ramo. Foi neste contexto que, no ano 2000, a sua principal empresa em Portugal, alterou a sua designação social para: FAURECIA - ASSENTOS DE AUTOMÓVEL, LDA., com sede em S. João da Madeira, denominação que ainda hoje se mantém. Para além desta empresa, o Grupo FAURECIA, constituiu em Portugal mais quatro entidades: SASAL, em Vouzela; EDA, em Nelas; FAURECIA ESCAPES, em Bragança e FAURECIA COMPONENTES, em Palmela. Neste conjunto de cinco empresas o Grupo FAURECIA empregava em Portugal mais de 2.500 trabalhadores. Para além destas empresas, o Grupo FAURECIA detinha ainda, em várias parcerias, outros investimentos em empresas portuguesas, todos ligados ao ramo automóvel.

É também de salientar a atividade empresarial continuada pelo Senhor Ruy Moreira no período pós MOLAFLEX, mantendo participações sociais em cerca de doze sociedades, com atividades diversas nos ramos Imobiliário, Serviços e Comércio. A fim de agregar e gerir essas sociedades foi constituída uma “Holding Familiar”, denominada MORIMOR – Sociedade de Controlo Moreira, Ld.ª (SGPS), com sede em Milheirós de Poiares, sendo essa a sua “atividade principal” em 01/01/1995.

A Memória perdurará!


Notas finais:
1.       A elaboração deste trabalho (cujas citações utilizadas tiveram origem em documentos antes publicados e em outras informações de acesso restrito) constitui uma singela homenagem à Memória do Senhor RUY HÖFLE DE ARAÚJO MOREIRA, versando, sobretudo, os seus “carismas” como Empresário e como Gestor; foi dado especial destaque ao seu empenho e dedicação na atividade desenvolvida ao serviço das Empresas do GRUPO MOLAFLEX, tão marcante na vida e na memória de muitos Milheiroenses que ali foram acolhidos e onde trabalharam, de forma apaixonada, durante longos anos;

2.       Existem, contudo, muitas outras facetas importantes da vida do Senhor RUY MOREIRA a merecerem realce, nomeadamente: compromisso familiar; empenhamento cívico e político; ação social com pessoas e instituições; participação ativa em várias Associações Industriais, Comerciais e Culturais; atividade desportiva como praticante de Vela, dirigente associativo e organizador de várias provas nacionais e internacionais; e tantas outras Instituições, Empresas, Fundações e Associações de que foi fundador e dinamizador;

3.       Fica lançado o desafio: “porque a Vida não acaba, apenas se transforma”; e a Memória continua a ser o garante dessa Esperança.   

Janeiro de 2015                                                                          

                                                                                     Eugénio Resende de Bastos
                                                                                     Email: er.bastos@sapo.pt